O Fantasma do Paraíso – Ilustres Desconhecidos

Olá cidadãos da internet! Tudo bem? No nosso último “Ilustres Desconhecidos” nós apresentamos um pouco sobre um dos mais interessantes personagens da 2000 AD, o soldado do futuro, Rogue Trooper. Hoje estamos de volta para falar sobre um personagem em uma mídia diferente e de um estilo completamente oposto. Dessa vez vamos para os musicais para apresentar um personagem, e consequentemente um filme, que apesar de ser desconhecido, tem um legado muito legal e é, honestamente, uma excelente obra de arte.

Quando pensamos em “opera rock”, principalmente com uma pitada de comédia, é fácil pensar primeiro no clássico cult Rocky Horror Picture Show, de 1975. Porém, um ano antes, Brian De Palma dirigiu um filme com uma vibe bem parecida, mas que para mim, tem uma estrutura muito mais sólida.

Bom, a primeira coisa que você deve estar se perguntando é “Brian De Palma do Scarface?”, sim, o mesmo. O Brian De Palma de Carrie, A Estranha, Missão Impossível e Irmãs Diabólicas, outro filme desconhecido, porém, excelente.

O filme pode ser descrito como uma jornada musical por uma história trágica de terror gótico, mas com elementos do cinema clássico e até de cartoons no melhor estilo Scooby-Doo. O conjunto da obra é uma mistura que pode ser difícil de digerir para muitos e isso explica a bilheteria (ou falta dela) do filme. O filme foi um grande sucesso em Paris e em Winnipeg (por algum motivo que nem eles devem saber), mas no resto do mundo foi fracasso de bilheteria e crítica.

Desde o seu lançamento, ele ganhou um certo apelo cult, mas não por ser “tão ruim que é bom” como The Room, mas por ser um filme genuinamente bom, à frente de seu tempo e até mesmo mal interpretado pelos críticos da época.

A partir daqui não tem mais como fugir dos spoilers, por isso, fica aqui a minha forte recomendação para você ver esse filme. E sem mais delongas, vamos falar sobre o desconhecido Fantasma do Paraíso.

Ilustres personagens desconhecidos – O Fantasma do Paraíso

O Fantasma do Paraíso

Como avisamos, a partir desse momento teremos muitos spoilers do filme!

A história de Winslow Leach

O filme abre com a narração de ninguém menos do que Rod Serling, uma das maiores, se não a maior, mente criativa das últimas décadas.

Em sua narração, o icônico criador de Além da Imaginação nos fala sobre Swan, o produtor de maior sucesso do mundo, com tantos discos de ouro que ele tentou guardá-los no Fort Knox. Mais especificamente, Serling nos informa que essa é a história de “Um som, o homem que o criou, a garota que o cantou e o monstro que o roubou.”

Abrimos então com um show do grupo de rock nostálgico Juicy Fruits, interpretados por Archie Hahn, Jeffrey Comanor e Harold Oblong, cantando a Música Goodbye Eddie, Goodbye.

A música dos Juicy Fruits conta a história de um cantor chamado Eddie, que se sacrifica para que a irmã possa viver. No decorrer da história do filme, é basicamente a mesma jornada que veremos no personagem principal.

É então que somos apresentados a Winslow Leach, interpretado por William Finley (um grande colaborador de De Palma), que está tentando apresentar a sua opera “Faust” entre os intervalos do Juicy Fruits. E mesmo que ninguém, nem mesmo os faxineiros, esteja prestando atenção na música, ele toca o piano e se apresenta.

Durante a sua apresentação, o foco corta para uma visão em primeira pessoa de Swan. O produtor estava procurando uma música para abrir o “Paraíso”, a maior casa de rock do mundo, e acha que a música de Winslow é a escolha perfeita, apesar de não ter intenção de contratar o músico ou dar qualquer crédito para ele.

O assistente pessoal de Swan, Philbin, interpretado por George Memmoli, procura Winslow para dizer que Swan quer produzi-lo e que vai levar suas partituras para o produtor “dar uma olhada e logo entrar em contato.”

Um mês depois, Winslow tenta entrar em contato com Swan, mas é jogado para fora da empresa Death Records. Winslow segue um dos carros do executivo e descobre onde ele mora.

Ao chegar na mansão, Winslow se depara com muitas mulheres cantando (ou esgoelando) a letra de sua música. Porém, entre as terríveis vozes, ele encontra uma boa cantora chamada Phoenix, interpretada por Jessica Harper, que se tornaria famosa depois pelo seu papel em Suspiria.

Winslow, depois de um curto dueto, se apaixona pela cantora, que também fica encantada com a bondade e carisma do compositor. Mas logo o momento de sorte do nosso herói acaba quando os seguranças de Swan o jogam para fora da mansão e dizendo que “hoje Swan só verá as garotas”.

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Em um último esforço, o compositor se veste de mulher para tentar encontrar com o famoso produtor e é aí que finalmente temos a primeira visão de Swan, interpretado por Paul Williams, um dos mais lendários compositores dos anos 70.

A escolha de Paul Williams para interpretar Swan é no mínimo curiosa. No filme, o produtor é um homem de sucesso, sedutor, imponente e temido, algo difícil de você ver no simpático Williams, que tem apenas 1,57 de altura.

Ao ver Winslow vestido de mulher, o vilão prova que é uma babaca sem volta mandando um categórico “Tire essa bicha daqui”. Winslow é jogado para fora, espancado, incriminado e condenado à prisão perpétua por porte de drogas.

Nasce o Fantasma do Paraíso

O pobre compositor é enviado para o complexo “Sing Sing”, uma instituição de reabilitação mantida pela Death Records. Lá, Winslow tem seus dentes removidos e substituídos por dentes de metal, já que os comuns são “fonte de infecções” e é forçado a trabalhar na linha de montagem de produtos e brinquedos dos Juicy Fruits.

Enquanto trabalhava, Winslow escuta em um rádio que o Paraíso vai ser aberto e que a abertura vai contar com os Juicy Fruits cantando o novo sucesso Faust. Em um ataque de raiva por ter a sua música usurpada, o personagem principal ataca um guarda e consegue escapar de Sing Sing.

Fora da cadeia, ele tenta sabotar a produção do novo disco dos Juicy Fruits, mas após ser baleado por um guarda, ele acaba caindo dentro da prensa de discos e tem o rosto desfigurado e perde a sua voz antes de conseguir fugir.

Winslow consegue entrar dentro do Paraíso, justamente durante o ensaio dos Juicy Fruits, cantando uma música que é claramente uma “destruição” da versão original de Faust.

Sem tempo a perder, o desfigurado herói pega roupas do camarim, assumindo a identidade do Fantasma.

Sua primeira ação é colocar uma dinamite no palco e (tentar) explodir os Juicy Fruits, iniciando o seu plano para sabotar o homem que destruiu a sua vida. Porém, Swan não é nada burro e percebe que se aliar a Winslow é melhor do que enfrentá-lo.

O produtor do mal devolve a voz do Fantasma usando um sintetizador e faz um acordo com ele para que ele possa parar de aterrorizar o Paraíso. Winslow reescreve a sua opera para Phoenix e Swan garante que ela será a principal cantora.

Para não haver dúvidas, Winslow assina um contrato, com sangue, onde claramente muito mais do que questões musicais são tratadas. O personagem literalmente faz um contrato com o diabo.

Porém, como o bom mau caráter que é, Swan não coloca Phoenix como cantora principal, afinal, “Ela é perfeita. E eu não gosto de ver a perfeição em outras pessoas”, palavras do próprio vilão.

Temos então mais um personagem na história, o roqueiro do estilo glam Beef, interpretado pelo incrível (e subestimado) Gerrit Graham. Beef é escolhido por não ter o mesmo timbre necessário para a melodia, já que as músicas foram reescritas para a voz de Phoenix. Mas Swan diz que “Você pode cantar melhor do que qualquer piranha. Mude a música como quiser”. Algo que não agrada o Fantasma do Paraíso nem um pouco.

Antes da apresentação, Beef recebe uma visita de Winslow em uma cena que é uma paródia bem-humorada e criativa de “Psicose”. Ele avisa “Minha música é para a Phoenix. Apenas ela pode cantá-la. Quem tentar, morre!”.

A abertura então começa com um show dos The Undead, que são os Juicy Fruits em uma vibe muito Kiss. A música e o show possuem um estilo muito parecido com shows de Alice Cooper e outras bandas com bastante teatralidade em suas apresentações.

E finalmente temos a apresentação de Beef, com um estilo todo Glam, cheio de glitter e a voz de Ray Kennedy em uma das melhores, se não a melhor, música do filme, mas o show não acaba nada bem para ele.

Philbin coloca Phoenix para cantar a próxima música, chamada Old Souls, e ela é um sucesso instantâneo, agradando o todo o público e Winslow.

A ascensão de Phoenix e fim de Winslow

A morte de Beef não abalou Swan. Na verdade, ver um astro do rock morrer ao vivo levou a plateia à loucura, o que leva o vilão do filme a indagar “A abertura do Paraíso é um sucesso, mais do que eu poderia sonhar”.

O dono do Paraíso se aproxima de Phoenix, dizendo o quão talentosa ela é e promete fama e fortuna para a jovem cantora. Ela, encantada por Swan, logo aceita as suas condições, além de um convite para a sua mansão pessoal.

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Winslow percebe na mesma noite que a sede de sangue da plateia com a ambição de Swan vão levar Phoenix para um caminho sem volta e tenta alertá-la, mas a cantora não o reconhece, e foge com medo do fantasma, correndo para os braços do verdadeiro vilão do filme.

Ao ver sua amada toda carinhosa com seu inimigo, o Fantasma tenta acabar com sua própria vida, cravando uma faca em seu coração, apenas para acordar pouco depois, com Swan dizendo que, por causa do contrato, Winslow não pode morrer.

De volta ao Paraíso, Winslow encontra uma gravação que mostra uma tentativa de suicídio de Swan. O vilão tentou acabar com a sua vida porque “Não queria ver um rosto tão perfeito envelhecer”, mas antes de cortar seus pulsos ele recebe uma visita de uma criatura sinistra, que faz com ele um acordo, ele ficará jovem para sempre e será imortal, a gravação do pacto vai envelhecer no seu lugar. Mas Swan precisa ver a fita todos os dias. Se ela for destruída, o pacto é desfeito e o vilão morre.

O herói descobre que Swan também tem planos de se casar com Phoenix ao vivo e depois atirar contra ela para repetir o sucesso da morte de Beef. Para salvar a amada, Winslow queima todas as gravações e corre para o palco do paraíso.

O Fantasma consegue evitar que Phoenix seja morta e revela o verdadeiro rosto de Swan para o mundo. Porém, ao conseguir matar o vilão, o contrato é finalizado e a ferida do seu coração abre novamente.

Enquanto sangra até a morte, o Fantasma tenta alcançar Phoenix, que ainda é incapaz de reconhecer o compositor que tinha tratado ela com carinho. A cantora apenas reconhece o rosto de Winslow quando ele já está morto.

Enquanto tudo isso acontece, a plateia (com muitos cobertos de sangue) continua em êxtase com o show.

Legado de Fantasma do Paraíso

Como dissemos, o filme Fantasma do Paraíso não foi um grande sucesso. Rocky Horror Picture Show acabou roubando o lugar do filme como o “primeiro rock opera de terror e comédia”. Uma coincidência interessante é que Jessica Harper interpretou Janet Weiss em Tratamento de Choque, de 1981, que é a sequência indireta de Rocky Horror.

Mas com o tempo a obra acabou ganhando uma legião de seguidores. Até hoje, em Winnipeg acontece a Phantompalooza, um evento com exibições do filme e encontro com os artistas envolvidos no projeto. No seu lançamento, o filme foi tão bem aceito pela população da cidade que ele ficou em cartaz por 18 meses. Além disso, a trilha sonora do filme ganhou o disco de ouro graças à cidade, com mais de 20 mil discos vendidos apenas lá.

Mas claro, não foram apenas os parisienses e os moradores de Winnipeg que gostaram do filme. Diretores famosos como próprio Edgar Wright já declararam apreciar a obra. Mais interessante ainda é que o filme é uma das maiores inspirações da dupla Daft Punk.

Reza a lenda de que os dois se conheceram em uma exibição de Fantasma do Paraíso e em uma entrevista ao The Guardian os artistas disseram que viram o filme mais de 20 vezes cada um e que o personagem principal inspirou o design das roupas que eles usam atualmente.

Anos depois, a dupla fez uma colaboração com Paul Williams na música Touch, que tem claras inspirações em uma das melhores cenas do filme.

Veja como a música começa com a voz robótica de Paul Williams antes de ele começar a cantar em sua voz normal.

Uma estrutura bem parecida com essa cena:

Mas não foi só a indústria da música que tirou inspiração dessa obra de arte setentista. O design do Fantasma também inspirou um dos maiores ícones da cultura pop. George Lucas tirou inspiração da fantasia de Winslow para criar Darth Vader.

Mais especificamente, o módulo no peito do Lord Vader é inspirado no módulo de voz que Winslow ganha de Swan.

E por último, mas não menos importante, o personagem também dá as caras em Os Simpsons durante uma das aberturas dos episódios de terror (que foi feita pelo Guillermo Del Toro). O personagem aparece na cena em que Lisa é mandada para fora da sala de música.

E essa é a história e parte do legado deste interessante e desconhecido personagem!

Foi um post longo, afinal esse é um filme com muito para contar e que realmente merece a atenção de quem possa se interessar pelo estilo! Muito obrigado por terem acompanhado até aqui e até a próxima!